Duelo na Savana
 

 

A história de um búfalo chamado Lumi
 
             

 

O duelo de que vos falo não foi aqui no Krugger Park, nem no Gorongoza, mas sim junto ao rio Lugenda

Olá amigos!

Lumi era um Búfalo amigo do Ventor
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O Ventor e o Lumi conheceram-se nas margens do rio Lugenda.

Agora, o vosso amigo Quico, vai contar-vos esta história tão linda quanto terrível que ouviu ao Ventor. Como já sabem, ele esteve naquela famigerada guerra de África. Foi ali que aprendeu muito na vida! Só vos posso contar algumas coisas porque o Ventor não gosta muito de falar disso! Mas vai-me contando algumas histórias e eu filtro-as para vocês!
Contou-me, por exemplo esta história a que chamou - Duelo na SavanaDiz o Ventor que histórias na savana se desenrolam todos os dias e há poucos que as contam porque, para além dos entretimentos nos safaris, há pouca capacidade para dar a conhecer aquele mundo belo, mesmo que selvagem!
A vida dos safaris é para ricos, tipos com grana, como dizem os nossos irmãos além Atlântico! Depois dos safaris, o que querem é sopas e descanso e partir para outras caçadas que, o Ventor, a partir de uma certa altura, repudiou!
Mas na savana a vida é dura para os nossos lindos amigos que por lá caminham todos os dias. E desta vez, eu vou contar-vos a história do Lumi, um búfalo de que o Ventor muito gostava.

 

Vida e morte na savana

             
  leao2.jpgImaginem ver um leão a beber água nas margens do rio Lugenda, olhando-vos, já na escura noite!  
     
     
         
  «Lumi nasceu no meio do capim, num vale da serra de Mecula bem juntinho ao rio Lugenda, no norte de Moçambique. E Lumi poderia ter-nos deixado muitas histórias da sua vida se soubesse ler e escrever mas, os búfalos, ainda só têm a escola da vida. Vida dura embora o seu trabalho seja só comer e dormir, pensarão muitos de nós! Mas não! A vida do Lumi foi como a vida de todos os búfalos e como a de todos os animais da savana, uma luta permanente! Ele nasceu lindo! Sua mãe começou logo a limpar-lhe o "fato" com que se apresentou perante Apolo, o amigo do Ventor e de todos nós e, ao ver o céu azul, "a tenda de Apolo", terá exclamado: “assim vale a pena”!Reparou que, à sua frente, os pastos eram verdes, e terá pensado que, no meio daqueles vales, tudo continuaria lindo e valeria a pena viver a vida de búfalo. Quando olhava para a sua mãe considerava-a uma bisarma cheia de grandeza e força. Imbatível!   bufalos-aquaticos.jpg

Este pequenino, podia ser o Lumi

 
         
     
         
  De repente, Apolo, o amigo do Ventor, na sequência da sua caminhada partiu e Lumi apercebeu-se que à sua volta a escuridão era enorme. O terror apossou-se de Lumi. A sua segurança era apenas o cheiro de sua mãe e Lumi, sempre com a cabeça encostada à sua perna dianteira, nunca a largava no meio daquela escuridão horrenda. Ao fim dessa tormenta, começa a raiar, no horizonte, uma ténue luzinha e Lumi começava a observar os pontinhos brancos, no tecto da tenda. De repente, a leste, no horizonte, voltou a nascer outro sol e ao romper da manhã, toda a família e amigos se espalhou, a comer a erva tenra. Lumi só tinha sentido para os tetos da mãe e não percebia aquele menear de cabeças á sua frente, pelo vale que desce encostas até às águas límpidas do rio Lugenda, numa azáfama permanente e sempre a dar ao dente.  
         
     
         
              O calor começou a subir e todo o seu Maralhal se começou a encostar pelas sombras frescas do grande arvoredo. Ali, mais em baixo, as águas do Lugenda, caminhavam ao encontro do seu receptor, o rio Rovuma e reflectiam nos grandes montes, a gloriosa luz de Apolo, o amigo do Ventor.Assim, por trilhos maravilhosos, Lumi ia crescendo e caminhando, dia após dia, ano após ano, ao lado de sua mãe, a quem prometera ser seu guardião, e também ao lado dos perigos que povoam a savana.

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Búfalos sempre alerta

             
         
     
         
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A velhice, companheira da solidão. É na solidão que o búfalo perde o seu último combate

  Quando os aviões de guerra iam fazendo passagens baixas sobre os vales e montes que se debruçavam sobre o Lugenda, o seu ronco demoníaco quebrava a monotonia e sossego à família de Lumi. Mas Lumi aprendeu que os aviões do Ventor não faziam mal à sua família e por fim, ele já se levantava num pulo, sacudindo-se todo, cabriolando, á passagem do Ventor e seus amigos e orneava num som semelhante ás vacas da Assureira do Ventor, como que a dizer: “salvé Ventor verdadeiro rei das savanas, amigo da minha gente e da nossa terra que se espalha por todos os vales do Lugenda”!Nas margens do Lugenda, cheio de água pura nos tempos secos, ou nos lamaçais das suas margens nos tempos de chuva, os búfalos, companheiros de Lumi, sabem que devem permanecer sempre alerta em defesa individual e do grupo, para tentar permanecer tanto tempo, quanto possível, a pisar os capins da savana.              
         
     
         
             

Os anos foram passando e Lumi e os seus, tinham por adversários terríveis, os poderosos leões, que sós, em nada os atemorizavam mas, em grupos, eram demoníacos. Assim, desde pequenino, Lumi viu ficar para trás os menos capazes, por velhice, por doença ou feridos em lutas nupciais, tal como os bois fazem pelos vales da serra de Soajo. Sua mãe, que muito bem o soube tratar e ensinar, tinha-o preparado para a vida de terror que se vivia na savana! Mas sua mãe já tinha deixado todo o grupo para sempre e Lumi, recordava como ela tinha sido trucidada por um grupo de leões, com os quais travara a sua maior luta de sempre em defesa daquela que lhe dera a alegria de se tornar o grande búfalo, "senhor" da savana.

Lumi cresceu, no meio dos seus, nessa luta permanente entre os vários habitantes que juntos, disputavam o seio da savana, e mais tarde, constituiu família que ajudou a alargar o seu grupo e com outros grupos acabaram por povoar bem povoada de belas manadas as montanhas da região de Mecula e de todo o Lugenda que, em grandes manadas, como as “vezeiras” no Soajo, caminhavam ao sabor do crescimento do capim, como verdadeiras máquinas enfardadeiras!

 

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Luta de morte - tudo em volta são leões

             
         
     
         
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Mais um pouco e apanhámo-lo

 

Quando as máquinas do Ventor apareciam nos ares dos seus domínios as manadas constituídas por búfalos novos e outros mais atemorizados, corriam por baixo, por entre árvores e arbustos, deixando para trás um lastro de pó que subia no ar como o fumo de uma queimada!

Lumi, durante os seus anos de uma vida forte, caminhava sempre junto dos seus velando pela segurança de todos, estando sempre na frente da manada, na luta contra os leões esfomeados. O grupo do Lumi, numa terrível luta com leões, na defesa de sua mãe, chegou a isolar um leão de um grupo de 12 e desfaze-lo à cornada, lançando-o pelos ares de cabeça para cabeça, como se fosse uma bola, até o desfazer todo. Esta foi a maior luta do Lumi! Mas a vida, na sua caminhada pelo tempo, prega-nos partidas a todos e Lumi não foi excepção. A velhice começou a apoderar-se de Lumi e nas suas pernas começou a faltar-lhe a força de outrora. Começou a ficar para trás, isolado, tentando apanhar mais umas ervas, deixando de acompanhar a manada, como sempre devia ser feito. A velhice é meio caminho andado para o isolamento, para a solidão e esta para a morte.

             
     
     
     
              Faltam as forças e com elas a vontade de prosseguir nos mesmos trilhos da vida e isso leva a que um grupo de leões cerque o Lumi e não lhe dê oportunidade de fuga, porque à sua volta estava a força da morte constituída por 10-12 leões e as suas pernas já não podiam partir para as lutas de que sempre tinha feito parte para a salvação de todos. Agora, Lumi, estava só!Lumi tenta defender-se à cornada, mas este gesto que obriga os leões a um movimento permanente, também o vai cansando. De repente um leão salta-lhe para cima do lombo e começa a morder-lhe a coluna, outro agarra-lhe o rabo outros vão mordendo por onde podem, e as últimas forças das pernas de Lumi é para se manter de pé, não se deixar cair porque logo que caia tudo terminará! Lumi consegue berrar alto pelos seus companheiros e dois deles, filhos do Lumi, voltam para trás em direcção do chamamento e vêm Lumi de pé com seis leões agarrados a ele e outros tantos a tentar tomar posição.   bufalo.jpg Quando no chão, já pouco ou nada há a fazer              
         
     
         
              leoes.jpg Morte de uns, satisfação de outros. É este o lema na savana onde a luta é atroz. Na savana até os mais fortes caem nas garras dos mais fracos. Apenas é necessário saber aguardar o timing   Os dois búfalos investem furiosamente sobre os leões. Os leões debandam espavoridos e o velho Lumi a sangrar por tudo que é sítio, sem nunca ter caído, não tendo dado chances de lhe agarrarem a garganta, tenta ainda investir contra os leões, mas mal se mexe. Os dois filhos e outros amigos levam-no a tentar apanhar a manada e os leões cansados ficaram para trás a vê-los partir.Lumi foi metido no meio da família e dos amigos mas o calor apertava e ao cair da tarde têm de ir beber água às margens lamacentas do Lugenda. Descem todos rumo ao rio e empanturram-se de água. Sede saciada, preparam-se para partir e os leões acompanharam-nos e ficaram na sua retaguarda, deitados, a vê-los beber. Sai tudo da água e tomam o seu rumo mas na saída dos últimos estava o Lumi!O Lumi tinha dificuldades em sair da água. As patas estavam atoladas nos lamaçais, continuava a sangrar das dentadas dos leões e o seu corpo tornava-se cada vez mais pesado. Quando os últimos búfalos estavam a sair da água, os leões continuavam com o olhar no Lumi.              
         
     
         
  Alguns búfalos voltam atrás, para ajudar o Lumi, mas ele não tem forças para sair. Um búfalo investe sobre os leões, outro segue-lhe no encalço e outros preparam-se para lhe seguir o exemplo, os leões que eram muitos fogem, mas duas leoas intrépidas entram, água dentro, e atacam o Lumi dentro de água, pela última vez. Lumi sem forças e com as patas presas nos lamaçais, não aguenta o impacto e cai. Uma leoa ferra-lhe os dentes na grande garganta e a outra segue-lhe o exemplo, e Lumi debate-se, mas preso no lamaçal pisado, cheio de buracos, nada consegue fazer.Os búfalos que foram atrás dos leões regressam, olhem a água e vêm que já nada podem fazer pelo seu velhadas. Enquanto a sua veia jugular se esvai em sangue, Lumi ainda os vê quando o branco do seu olho começa a tomar posição sobre a pupila negro-castanha. Ele olha as árvores da margem, olha os amigos e vê, pela última vez, o céu azul daquele que tinha sido o seu Mundo. No seu último suspiro ainda terá dito: “adeus companheiros”»!  
         
     
         
              Agora, continuem comigo gato8.jpg e vamos à história de Newky, o Mabeco, outro amigo do Ventor. Mas se têm medo de mabecos e não querem conhecê-los no meio da savana, voltem a Ventor em África para outras histórias ou à Grande Caminhada. Aqui podem entreter-se com outras histórias ou caminhar serenamente . Caminhar faz bem e é muito melhor que ficar rodeado de mabecos, ou hienas, ou ...              
         
                Uma savana em África, cortada por um rio - pode ser o Lugenda